Durante as eleições presidenciais de 2026, acompanhei com espanto os posicionamentos de alguns psicólogos e psicanalistas que recorriam ao nome de Freud para justificar discursos autoritários ou defender uma suposta neutralidade política da psicanálise.
Foi a partir dos absurdos que li que nasceu a ideia deste encontro.
Como podemos invocar Freud e, ao mesmo tempo, desconsiderar sua história? Judeu, perseguido pelo nazismo e obrigado a exilar-se em Londres, em 1938, Freud conheceu diretamente as consequências da violência totalitária.
Em Psicologia das massas e análise do eu (1921), Freud investigou os processos de identificação, a idealização dos líderes e os vínculos libidinais que sustentam as massas. Essas formulações nos ajudam a interrogar os mecanismos subjetivos envolvidos na submissão à autoridade e na hostilidade dirigida ao outro.
Hannah Arendt, em Origens do totalitarismo (1951), analisou como a ideologia e o terror podem destruir a pluralidade humana e as condições da liberdade política. Já Paulo Freire, em Pedagogia do oprimido (1968), nos convida a pensar a desumanização como uma realidade histórica produzida nas relações de opressão, cuja superação exige consciência crítica e uma prática comprometida com a libertação.
Embora partam de tradições teóricas distintas, esses autores nos ajudam a interrogar as relações entre subjetividade, poder, opressão e resistência.
A neutralidade necessária à escuta analítica não deve ser confundida com indiferença diante da barbárie.
Convidei Élisabeth Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa, para revisitar a história de Freud diante do nazismo e refletir conosco sobre a responsabilidade ética e política da psicanálise perante os autoritarismos contemporâneos